Precisamos falar sobre a comunidade nerd e os perigos do Tribalismo

Durante muito tempo os mundos de super-heróis, fantasias medievais e batalhas interestelares foram apreciados apenas por um pequeno grupo de pessoas. Os chamados nerds eram vistos como pessoas esquisitas, sem habilidades sociais e inaptas aos esportes e atividades físicas, o que as faziam levar uma vida reclusa e imersa em seus interesses peculiares.

Suas obras preferidas eram tratadas como subculturas, e estas pessoas precisavam se encontrar de forma sorrateira nos porões de suas casas para jogar RPG, em convenções de Star Trek ou em lojas de gibis para trocar HQs e discutir quem levaria a melhor em uma luta, o Super-Homem ou o Batman.

Por serem discriminados e tratados como outsiders, sempre existiu uma espécie de cumplicidade entre essas pessoas. Afinal, para sobreviver ao dia a dia os nerds precisavam se unir. No colégio, por exemplo, a primeira coisa a se fazer era olhar em volta e buscar pessoas iguais a você.

 

stranger things - jogando rpg“Quando a neve cai e os ventos brancos sopram, o lobo solitário morre, mas a matilha sobrevive.” -Ned Stark

 

Lembro por experiência própria: durante minha infância tive que trocar de colégio, e estava com dificuldade de me enturmar. No recreio, ao ver um grupo de garotos isolados do resto com um conjunto de dados coloridos, folhas de papel e pesados livros de RPG, fiquei aliviado. Não havia dúvidas de que aquela seria a minha galera.

Mas dos anos 80/90 para cá, alguma coisa aconteceu. As grandes obras nerds se tornaram mainstream, e ficar em casa em uma sexta à noite vendo séries se tornou um comportamento aceitável e até considerado normal para um jovem. Ser nerd já não é mais vergonhoso, muito pelo contrário, ser nerd agora é cool.

O filme A Vingança dos Nerds, de 1984, já seria o sinal de uma nova era, um prelúdio do que estaria por vir. Pela primeira vez os nerds foram retratados como protagonistas e defenderam seu território diante dos valentões e garotos mais populares.

 

filme a vingança dos nerds

 

E como essa virada aconteceu? Como os nerds tomaram de assalto a cultura pop?

Primeiro a revolução digital trouxe poder e influência para figuras como Bill Gates e Steve Jobs, que ajudaram a levar os computadores para dentro das residências familiares. Os video games, por sua vez, passaram a se tornar presentes populares de pais para seus filhos. E em algum momento no final do século, os estúdios de Hollywood redescobriram obras de universos ricos e nostálgicos, como Star Wars, Senhor dos Anéis e os heróis da Marvel.

Eu percebi que algo diferente estava acontecendo quando assisti a O Senhor dos Anéis no cinema. Pela primeira vez na vida senti que algo tinha sido feito especialmente para mim. Era tudo o que eu realmente queria ver, transformado em uma super produção.

E mesmo diante de todo esse avanço para a comunidade nerd, algo estranho aconteceu. Algo mudou e já não somos mais um só time. A cultura nerd não é mais inclusiva, mas rancorosa, tóxica e preconceituosa.

 

Os perigos do Tribalismo

 

dc versus marvel

 

Os seres humanos têm uma profunda necessidade de fazer parte de alguma tribo ou comunidade. Isto pode ser explicado pelo processo evolutivo de nossa espécie. Nos agrupávamos em tribos relativamente pequenas, nos tornando extremamente dependentes destes grupos para garantir nossa sobrevivência. Era literalmente uma questão de vida ou morte.

Apesar de hoje em dia não precisarmos mais da convivência em tribos para assegurar nossa integridade física, ainda temos algum tipo de dependência de grupos sociais para o nosso bem estar psicológico. E por conta disso, criamos tribos ao redor dos mais variados temas, como times de futebol, gostos musicais ou interesses em subculturas como RPG ou HQs, como ilustrado no início do post.

Os nerds, durante muito tempo foram uma única tribo. Por serem uma minoria, se reuniam para compartilhar seus interesses e de certa forma se defender dos ataques de outros grupos. Era importante que os nerds conseguissem encontrar uns aos outros, para garantir a sua sanidade e muitas vezes até sua integridade física.

No entanto, toda tribo ou grupo que cresce em tamanho tende a perder sua identidade original, sua essência. Muitas pessoas novas entram, com interesses já não tão parecidos e conexões menos fortes. Vai ficando cada vez mais difícil interagir com totalidade do grupo, e conhecer todos pelo nome. Naturalmente o grupo começa a se dividir.

O antropólogo Robin Dunbar estudou diferentes culturas e tribos pelo mundo e chegou ao Número de Dunbar, que seria um limite cognitivo do número de pessoas com as quais um indivíduo conseguiria manter relações sociais estáveis. Este número varia entre 100 e 230 pessoas. Em comunidades maiores do que isso, começa a ser difícil conhecer com certo nível de profundidade todos da tribo.

Dunbar notou a apropriação deste conceito pelas organizações militares, que com o passar dos anos, chegaram a uma regra empírica que dizia que unidades de combate funcionais não poderiam ter mais do que 200 homens. Como diz o autor, “Com unidades desse tamanho, é possível implementar ordens e controlar comportamentos rebeldes com base na lealdade pessoal e em contatos diretos homem a homem. Nos grupos maiores, isso é inviável”.

No livro, O Ponto da ViradaMalcolm Gladwell utiliza como exemplo deste conceito um grupo religioso conhecido como huteristas, que vivem de agricultura e subsistência em colônias da Europa e em alguns lugares dos Estados Unidos. Os huteristas adotam a política de dividir a colônia assim que o número de integrantes se aproxima de 150, e seguem essa regra há séculos, com o objetivo de garantir que os integrantes conheçam bem uns aos outros e mantenham-se entrosados.

E não precisamos ir tão longe. Vemos que quanto maior a torcida de um time de futebol, mais ela se subdivide em torcidas organizadas, muitas vezes rivais e violentas entre si.

Voltemos então à comunidade nerd. Com a popularização do gosto por video games, quadrinhos e universos de fantasia, a comunidade sofreu um grande crescimento, trazendo pessoas com interesses bastante diversos. Afinal, o universo nerd em si também havia aumentado e incorporado novas obras e objetos de interesse.

 

comic con 2018

 

Com isso, as pessoas olhavam à sua volta e já não se identificavam mais 100% com outros daquela tribo. Não compartilhavam de todos os gostos e valores como antigamente. Começaram então a surgir as subdivisões: Trekkies, Nintendistas, Potterheads etc. O universo nerd hoje é complexo e permeado por diferentes tribos, que muitas vezes se posicionam de forma antagônica e se atacam fervorosamente, como Marvetes vs DC Nautas e Sonystas vs Caixistas.

Os perigos do Tribalismo são óbvios. Fanatismo, preconceito, xenofobia… Quando as pessoas acabam investidas além do normal em uma comunidade, tendem a cometer diversos tipos de atrocidades em nome de sua tribo. A maioria das guerras e genocídios foram provocados por um exagerado comportamento tribal.

É muito interessante como um vantagem evolutiva desenvolvida pelo ser humano pode acabar sendo a própria característica que ameaça a sua existência.

Ok, o Tribalismo dentro da comunidade nerd não chega a ser tão grave. No entanto, quando associado ao anonimato trazido pela Internet nos dias de hoje, gera uma série de comportamentos bastante tóxicos e abusivos.

 

Identidade tribal

 

trekkies na convenção de star trek

 

Os fóruns e as redes sociais são os novos espaços de discussão, em oposição às antigas convenções ou lojas de HQs, que reuniam aficionados à sua porta. Hoje em dia, os espaços de interação são anônimos e impessoais. E todos sabemos que quando não estamos cara a cara, olhando nos olhos do nosso interlocutor, fica muito mais difícil desenvolver empatia e tratá-lo como uma pessoa real, dotada de sentimentos. É praticamente como se as pessoas estivessem conversando com bots, indignos de respeito e consideração.

Ao atacar alguém com uma opinião divergente, o que estamos fazendo na verdade é reforçar a nossa “identidade tribal”. A identidade de uma tribo não passa só pelo que ela é, mas também pelo que ela não é. E muitas vezes o mais importante é o que ela odeia, como nos grupos mais radicais. É através da oposição ao outro que se define quem se é, e com as tribos funciona da mesma forma.

Quanto mais investidos em uma tribo, mais incorporamos o conjunto completo de suas ideologias, em um processo gradual. Alguns dos exemplos mais extremos são as religiões ou partidos mais radicais.

Um fato curioso também ocorre quando você é capaz de prever o ponto de vista de uma pessoa em questões delicadas como aborto e legalização de drogas, simplesmente pela opinião dela em relação a algum outro assunto, como por exemplo a liberação do porte de armas de fogo. Esta é uma evidência de que aquela pessoa faz parte de um grupo com uma identidade tribal forte e consolidada.

O problema nessa situação é bastante óbvio: deveria ser impossível, ou extremamente improvável, que todas as pessoas de um determinado grupo concordassem de forma tão enfática em assuntos complexos como os citados acima. Mas de alguma forma, a maior parte das pessoas que participam de grupos radicais tendem a concordar em uma gama muito grande de temas, com pouca capacidade crítica para análises mais profundas que levem em conta argumentos dos dois lados de uma questão.

E, na prática, o que acontece é que muitas discussões ocorrem nas redes sociais porque as pessoas estão investidas demais em sua identidade tribal para se questionarem. Não ocorre uma reflexão sobre o tema sendo discutido, tampouco uma análise baseada nas novas informações que adquirem.

Como é muito difícil nos informarmos a respeito de todos os temas e desenvolver nossa própria opinião sobre cada um deles, acabamos “importando” a opinião da nossa tribo, o que parece ser uma boa ideia, já que nos unimos exatamente por compartilharmos algumas opiniões em comum, certo?

Nos apegamos assim a estas “visões de mundo” e, caso ocorra um conflito de ideias com outra pessoa, acabamos defendendo com unhas e dentes esta opinião que nem foi desenvolvida por nós mesmos. Afinal, se somos vistos como membros daquela tribo, não podemos deixar que outros indíviduos desmereçam seu conjunto de ideias, pois estariam desmerecendo a nós mesmos.

E assim o ciclo se perpetua.

 

A virtude epistêmica

 

gandalf - virtude epistêmica

 

Cabe a nós evitar o Tribalismo exagerado e policiar nossos comportamentos possivelmente tóxicos. Precisamos tornar a comunidade nerd mais aberta a discussões e mudanças de opinião.

Scott Alexander, famoso por seu blog LessWrong, defende que uma das soluções para o problema do Tribalismo seria a formação de comunidades baseadas na “virtude epistêmica“, ou seja, na busca pelo conhecimento através do diálogo.

Uma comunidade baseada na virtude epistêmica seria aberta a múltiplos pontos de vista e guiada pela curiosidade de seus integrantes. Seria imprescindível que os participantes tivessem a capacidade de mudar de opiniões quando confrontados com novas informações e evidências, fugindo de uma visão de mundo rígida e enviesada.

No universo nerd, implicaria em uma comunidade capaz de receber pessoas que gostem de algumas obras da DC e de outras da Marvel, e que possam expor suas opiniões sem serem atacados como resposta. Precisamos passar a frequentar (e até fundar) comunidades desse tipo, que discutam ideias e opiniões, mas que nunca atacam diretamente seus integrantes.

É preciso ter a humildade para ser gentil com ideias que discordamos. Usar a gentileza para evitar a armadilha de ser arrogante só porque uma opinião parece absurda.

Ainda há tempo de mudar. Nerds, uni-vos!

 

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Marcos Malagris

Publicitário, professor de marketing digital e graduando em Psicologia, gasta seu escasso tempo livre navegando na Interwebz, consumindo nerdices e contemplando a efemeridade da existência. Me siga no Twitter ou no Facebook!

Um comentário em “Precisamos falar sobre a comunidade nerd e os perigos do Tribalismo

  • 5 Fevereiro, 2018 at 9:08
    Permalink

    Não vejo problema nenhum em Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte.

    Reply

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