Big Little Lies: Sororidade, relacionamento abusivo e crise na maternidade

Vencedora de 8 Emmys, incluindo melhor minissérie, produção da HBO trata de temas atuais sem perder a poesia

 

É difícil falar sobre essa série sem dar spoilers, mas se eu tivesse que definir Big Little Lies em apenas uma palavra seria sororidade. A começar pela própria coprodução, na qual as vencedoras do Oscar Reese Witherspoon e Nicole Kidman uniram forças para dar luz à minissérie.

A adaptação do livro homônimo da escritora Liane Moriarty (2014, Ed. Penguin) se passa na magnífica cidade de Monterrey, CA, e acompanha a vida de três mulheres e os eventos que culminaram em uma tragédia.

A caminho de levar sua filha à escola, a comunicativa Madeline (Reese Witherspoon) conhece a jovem Jane (Shailene Woodley –A culpa é das estrelas), mãe do pequeno Ziggy e a mais nova habitante da cidade. Elas começam uma amizade ao lado da melhor amiga de Madeline, Celeste (Nicole Kidman), uma ex advogada que abandonou a profissão para se dedicar exclusivamente ao lar e à criação dos gêmeos que têm com o marido Perry (Alexander Skarsgard).

 

Madeline Celeste e Jane conversandoMais que friends, amigas.

 

As intrigas começam quando logo no primeiro dia de aula Ziggy é acusado de praticar bullying contra Amabella, filha de Renata (Laura Dern), maior executiva da região e rival de Madeline.

Pô, até aqui não parece nada interessante…

Mas, em Monterrey, nada é o que parece.

Madeline enfrenta de forma muito humana (e portanto, sujeita a falhas) a aproximação de sua filha mais velha com Bonnie (Zoe Kravitz, filha de Lenny Kravitz), a jovem esposa de seu ex marido Nathan (James Tupper – Revenge), e lida com as repercussões disso em seu próprio relacionamento com Ed (Adam Scott – Parks and Recreation).

Renata lida com a pressão de ser uma grande empresária, mais  bem sucedida que seu marido Gordon (Jeffrey Nordling – 24 horas), ao mesmo tempo que lhe é esperado cumprir com maestria o papel de mãe e esposa. Por passar muito tempo cuidando de seus negócios, acaba sendo julgada pelas outras mães, que não a consideram dedicada o suficiente.

Jane esconde seu passado e a origem de Ziggy.

Já Celeste sustenta as aparências de viver uma vida perfeita: marido escultural e bem sucedido, gêmeos saudáveis e felizes e uma mansão de frente pra praia.

Todas essas interações culminam nos acontecimentos da Noite de Gala do colégio, ocasião em que ocorre um assassinato. Não é necessário dizer que a chave para esse mistério somente é desvendada no fim da trama.

Jane e Madeline assustadasDo que ou de quem será que elas estão com medo? oO

 

A série começa com os eventos da Noite de Gala, e por meio dos interrogatórios da polícia os espectadores vão tomando ciência dos acontecimentos por flashbacks.

 

Atuações impecáveis

Todos os atores estão incríveis nos papéis, e aqui o número de Emmys não faz jus a todo o elenco: Reese Witherspoon também merecia uma estatueta por sua performance, mas estava concorrendo com Nicole Kidman e, entre elas, o prêmio ficou merecidamente com a última. Shailene Woodley mostra amadurecimento profissional, em um papel denso e bem diferente das personagens teen que interpretou na saga Divergente e A culpa é das estrelas.

Destaque também para os atores mirins, em especial Darby Camp no papel da filha mais nova de Madeline, Chloe, que simplesmente rouba a cena sempre que aparece!

Chloe em Big Little LiesOnde foi que essa menina do 1º ano aprendeu a ter esse gosto musical incrívi?

 

A produção ganha pontos ao humanizar as personagens, fazendo com que o público se identifique com elas, ou tenha a sensação de que as conhecem, pois são muito verossímeis (eu mesma identifiquei uma Madeline em minha vida).


Produção

Não são só as atuações catárticas que impressionam na série. Ela é toda muito bem produzida: a fotografia está perfeita, com paisagens e enquadramento incríveis, e a edição impecável. Há tempos não via uma trilha sonora casar tão bem não somente com as cenas, mas também com a série como um todo. É visível que houve um cuidado muito grande na interação da trama com a trilha sonora.

A minissérie é pura poesia, e apesar de acompanhar a vida de mulheres ricas, ganha pontos por conseguir fazer o espectador se identificar com as questões de seus personagens, ficando totalmente imerso no charme dessa cidade litorânea e na vida de seus habitantes. A começar pela abertura, com essa música que eu te desafio a ouvir apenas uma vez.

 

Empodere duas mulheres

Voltando à questão da sororidade… Big Little Lies passa com maestria a ideia de que muitas vezes as nossas diferenças se sobrepõem às semelhanças por preconceitos, inveja, ciúmes, e ao alimentar isso nos distanciamos cada vez mais daqueles que gostaríamos de ser. A chave para compreender o outro está na empatia. Falando especificamente agora com relação às mulheres, num mundo tão machista, cheio de violência contra a mulher, a série nos lembra de sermos gentis umas com as outras. Nós já temos (infelizmente, muitos) homens para nos violar, não precisamos também fazer isso nós mesmas.

Sou homem, não gosto de mimimi de história de mulher, vou gostar mesmo assim?

Olha, difícil responder a essa pergunta sem dar spoilers. Suficiente dizer que, se a poesia não for o bastante para satisfazê-lo, no mínimo ela servirá para te tirar da zona de conforto, e fazê-lo refletir um pouco sobre quais atitudes machistas você anda tomando no seu dia a dia.

 

Possível Segunda Temporada

Para quem não gosta de séries que enrolam e não terminam nunca (insira aqui qualquer série que passa atualmente na Warner), ou que deixam um cliffhanger para a próxima temporada, uma boa notícia: a primeira temporada conta a história do livro todo, então é muito bem fechada, tanto que foi lançada como uma minissérie, e não uma série.

No entanto, diante do enorme sucesso, os produtores da HBO já estão em contato com a escritora do livro Liane Moriarty para encomendar material para uma possível segunda temporada.

Oremos!

Big Little Lies está disponível na HBO.

E você, gostou da série? Se identificou com alguma personagem? Não se esquece de comentar! =)

Boo Mesquita

Geek de carteirinha e cinéfila, ama assistir a filmes e séries, ir a shows, ler livros e jogar, sejam games no ps4 ou boards. Quando não está escrevendo, pode ser vista fazendo pole dance, comendo fora ou brincando com cachorrinhos. Me siga no Instagram!

2 comentários em “Big Little Lies: Sororidade, relacionamento abusivo e crise na maternidade

  • 1 Novembro, 2017 at 17:00
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    Muito bom o artigo e a série! Achei super válido seu questionamento se homens irão gostar. Acho que os homens precisam ver a série e debater sobre os temas com os amigos. Eu adorei a série, recomendei o quanto pude e me deu muita vontade de assistir em sequência… de uma vez só, todos os episódios. Torcendo para uma segunda temporada!

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  • 2 Novembro, 2017 at 18:28
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    Rapha, o Marcos também gostou muito, mas entendo que é uma série que a maioria dos homens teria um preconceito de assistir por enquadrar na categoria “mulherzinha”…infelizmente, o machismo ainda é muito presente, e sua desconstrução é um exercício diário!

    Obrigada pelo feedback! =)

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