5 provas de que Os Últimos Jedi é o filme mais profundo da franquia Star Wars

CUIDADO! ALERTA DE SPOILERS!

Se você ainda não assistiu a Os Últimos Jedi, recomendamos que não continue a leitura. Favorite o link para ler após ter visto o filme, pois este artigo contém spoilers.

O Episódio VIII de Star Wars vem dividindo opiniões. Enquanto os críticos consideram em sua maioria um dos melhores da franquia, esse não é o sentimento de boa parte dos fãs.

Apesar de não concordar com os que dizem que este seria o melhor Star Wars desde O Império Contra-Ataca, fato é que Os Últimos Jedi está longe de ser um filme ruim. Ele consegue conectar as diferentes gerações apresentadas ao longo da franquia, ao passo que dá mais profundidade aos seus personagens. E é talvez nessa profundidade que esteja o maior acerto do filme.

Os Últimos Jedi subverte a narrativa tal como conhecida no universo Star Wars, na medida em que quebra as expectativas de heróis 100% perfeitos e vilões 100% malvados, e ele faz isso por meio da desconstrução dos arquétipos de seus personagens.

 

Kylo Ren, Rey e Luke em Os Últimos Jedi Em os Últimos Jedi, heróis e vilões são humanizados, se afastando da polarização clássica de 100% bom ou mal

 

Arquétipos são um conjunto de figuras e impressões que foram delineadas ao longo de gerações por meio de repetições de uma mesma ideia, e que foram guardadas no inconsciente coletivo.

Já teve a sensação de assistir a um filme e gostar de um personagem de cara, quase como se o conhecesse de algum outro lugar? O motivo para esse sentimento é porque provavelmente você já o conhece. Ele é a reprodução de um arquétipo.

Justamente por dialogar com o inconsciente coletivo, uma narrativa pautada em arquétipos tem mais chance de obter sucesso. Um exemplo visível desta repetição de arquétipos está nos filmes de super heróis.

A franquia de Star Wars construiu ao longo de gerações suas noções de ética e moralidade, e por muito tempo se guiou pelos arquétipos de seus personagens. Surgia uma perturbação na Força, um mal nascia. Em contrapartida, aparecia uma figura igualmente poderosa mas voltada para o bem. Com a ajuda de seu mestre, ela então conseguia anular o mal, restaurando assim o equilíbrio e a ordem na galáxia.

No entanto, Os Últimos Jedi desconstrói os arquétipos solidificados ao longo dos demais filmes da franquia, ao mesmo tempo em que estrutura seus diferentes núcleos ao redor da ideia de ambiguidade moral presente nos dois lados da Força. E como de se esperar, essa ousadia não agradou a todos.

Listamos abaixo os principais exemplos dessa subversão narrativa:

1 – Luke considerou matar Ben Solo

 

Luke Skywaker em Os Últimos JediApenas acho que isso não é uma boa ideia

 

Em Os Últimos Jedi, aprendemos que Luke Skywalker (Mark Hamill), herói e Mestre Jedi, cogitou matar seu sobrinho Ben Solo (Adam Driver) a sangue frio, enquanto este dormia. Esta atitude não condiz com o arquétipo de herói clássico reproduzido por Skywalker.

Quando ainda jovem, Luke respondeu ao chamado do herói em Tatooine, e desde então apresentava elevados valores morais. Além de habilidoso, era puro, corajoso, destemido e correto, sendo peça chave na luta contra o Lado Negro da Força.

Já como Mestre Jedi, Skywalker treinava padawans, dentre eles seu sobrinho, Ben Solo. Ao observar que o lado Negro da Força crescia em Ben, e por acreditar já tê-lo perdido, Skywalker considera matá-lo.

Mesmo que tenha se arrependido segundos depois, este pensamento demonstra a desconstrução de seu arquétipo de herói. Há uma quebra da expectativa sobre como Skywalker deveria se comportar, já que cogitar assassinar seu sobrinho não é uma atitude digna de um herói.

Luke alcança a redenção no final do filme, quando decide se projetar utilizando a Força na luta com Kylo Ren. Ao escolher não morrer pelas mãos Kylo, Luke protege o que restou da alma de Ben, já manchada pelo assassinato de seu pai.

 

2 – Kylo Ren teve motivações para escolher o Lado Negro da Força

 

Kylo Ren em Os Últimos JediEverybody hurts sometimes – Todo mundo se machuca de vez em quando

 

A revelação de que Ben Solo viu que seu tio pretendia matá-lo nos faz entender melhor as motivações que fizeram Ben escolher o Lado Negro.

Ben já se sentia rejeitado e negligenciado pelo pai e parecia cada vez mais tentando ao Lado Negro pela influência de Snoke (Andy Serkis). A compreensão de que seu tio queria matá-lo pode ter sido o empurrãozinho final para que Ben perdesse os últimos traços de humanidade e se entregasse ao Lado Negro.

Essa profundidade nas razões que levaram Ben a se tornar Kylo Ren o distancia do arquétipo do vilão chaotic evil, que é mau só porque gosta de fazer maldades, sem maiores explicações.

 


Algumas pessoas só querem ver o mundo queimar

 

No primeiro ato do filme Kylo parece ainda lutar contra os vestígios de luz que carrega representados por sua mãe, o que pode ser visto na cena em que desiste de explodir a nave que carrega a General Leia Organa.

Após ter matado o Líder Supremo Snoke, Kylo Ren tem a esperança de que Rey se unirá a ele, para que juntos governem a galáxia. Quando Rey recusa seus planos, vemos no último ato do longa a ascensão de um vilão amargurado, que já não está mais interessado na luta entre Primeira Ordem e Resistência, sendo motivado exclusivamente pela vingança contra aqueles que selaram seu destino.

 

 

3 – Luke Skywalker se recusou em treinar Rey

 

Luke e Rey em Os Últimos Jedi
A padawan que você respeita

 

Outra quebra de estigma envolvendo Luke Skywalker, dessa vez focada na sua trajetória como Mestre Jedi. Após a destruição do templo e o extermínio de seus padawans por Ben Solo, Luke teria buscado exílio em Ahch-To, retomando o primeiro templo Jedi .

Após ter falhado com Ben, Skywalker não conseguiu lidar com a perda e se fechou para a Força. Quando Rey chega a Ahch-To e pede treinamento, Luke se recusa em ajudá-la, contrariando o arquétipo do Mestre.

O Mestre é a figura que guia o herói durante sua trajetória, ajudando-o a alcançar todo o seu potencial. É um recurso muito comum e está presente em diversas narrativas: Mestre Ancião (Cavaleiros do Zodíaco), Xavier (X-Men), Senhor Miyagi (Karatê Kid), Mufasa (Rei Leão), Gandalf (O Senhor dos Anéis), Dumbledore (Harry Potter)…todas esses personagens reproduzem o arquétipo do Mestre. Na própria narrativa de Star Wars nos deparamos com vários Mestres, destacando-se dentre eles Yoda (Frank Oz) e Obi-Wan Kenobi (Sir Alec Guiness/ Ewan McGregor).

Contrariando a maneira com que Star Wars lidava com o arquétipo do Mestre, em Os Últimos Jedi Luke Skywalker inicialmente nega treinamento à Rey. Após muita insistência, Rey acaba conseguindo que Luke acatasse em lhe dar três lições. No entanto, as discordâncias entre eles sobre o destino de Ben Solo acaba por fazer com que Rey deixe o treinamento decepcionada com o Mestre Skywalker.

 

4 – Tanto Primeira Ordem quanto Resistência negociam equipamentos com a elite beneficiária da Guerra

 

DJ em Os Últimos JediThug life – Vida bandida

 

No segundo ato de Os Últimos Jedi, Finn (John Boyega) e Rose (Kelly Marie Tran) chegam em Canto Bight para tentar executar o plano de Poe (Oscar Isaac) e salvar a nave contendo os últimos sobreviventes da Resistência.

A própria cidade de Canto Bight flerta com o conceito de ambiguidade moral presente em todo o filme. Aparentemente bonita e turística, a cidade esconde um histórico opressor de escravização de crianças e animais, tudo para melhor entreter figurões da indústria bélica.

Após serem presos, Finn e Rose conhecem DJ (Benicio del Toro), e por meio dele descobrem que tanto a Primeira Ordem quanto a Resistência possuem os mesmos fornecedores de armamentos e naves, que são também os responsáveis por manter a base escravocrata de Canto Bight. Isso demonstra a hipocrisia da Resistência, pois ao fazer vista grossa para a origem de seus equipamentos de guerra acaba por financiar o sistema opressor que visa aniquilar.

 

5 – Almirante Amilyn Holdo aparenta ter caráter duvidoso

 

Almirante Holdo em Os Últimos JediPareço covarde mas sou legal

 

Dentre todos os exemplos de ambiguidade presentes em Os Últimos Jedi, a figura da Almirante Amilyn Holdo (Laura Dern) parece melhor personificá-los. Após a General Leia ter se ferido na explosão da nave, Holdo toma a liderança da Resistência, nos sendo revelado que ela é veterana de guerra e braço direito de Leia.

No entanto, diferente da posição do heroi clássico que enfrenta seus inimigos e não desiste da esperança, Poe descobre que Holdo tem planos de fugir. Isso nos traz uma visão covarde da personagem, que não honra a posição de liderança que tem na Resistência, e esta ideia permanece durante todo o filme.

No penúltimo ato do longa, porém, há uma reviravolta e nos é revelado que Holdo tinha um plano com Leia desde o início para garantir a fuga da Resistência nas pequenas naves, indetectáveis pela Primeira Ordem. Por fim, a redenção de Holdo vem quando ela fica para trás e dá sua vida para garantir a retirada da Resistência, num grande ato de heroísmo e auto sacrifício.

 

Por estas razões, apesar de nem todos os fãs de Star Wars terem gostado do rumo da história, é inegável que Os Últimos Jedi foi o filme que mais subverteu a narrativa conforme construída ao longo da franquia, dando mais profundidade a seus personagens e brincando com a ambiguidade moral de seu universo.

BÔNUS: Sobre a desconstrução dos arquétipos do herói, vilão e Mestre, o Rafael PH Santos fez um vídeo bastante didático que vale assistir.

Boo Mesquita

Geek de carteirinha e cinéfila, ama assistir a filmes e séries, ir a shows, ler livros e jogar, sejam games no ps4 ou boards. Quando não está escrevendo, pode ser vista fazendo pole dance, comendo fora ou brincando com cachorrinhos. Me siga no Instagram!

6 comentários em “5 provas de que Os Últimos Jedi é o filme mais profundo da franquia Star Wars

  • 23 Dezembro, 2017 at 13:11
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    Eu não tinha pensado mto no número 4, e é vdd, vou me surpreendendo cada vez mais com o filme.
    Outra mudança boa q o filme traz é sobre os pais da Rey.

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    • 7 Janeiro, 2018 at 13:41
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      Exatamente, Leonardo! Foi revigorante a ideia de que a Rey não é ninguém importante e que ainda assim a Força estaria com ela…traz esperanças de que qualquer pessoa pode ser forte na Força, e não só a linhagem dos Skywalkers…achei essa mudança bem legal também =)

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      • 15 Janeiro, 2018 at 21:50
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        Mas sempre qualquer pessoa podia ser forte com a força. Afinal Obi-Wan era Kenobi, Yoda era forte com a força, Mace Windu, etc. Mesmo Anakin quando surgiu era filho de uma escrava (ninguém importante), encontrado por acaso (a nave deles danificada caí ali) num deserto qualquer. Nesse contexto o único de “linhagem” foi o Luke.

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        • 17 Janeiro, 2018 at 22:18
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          Oi Juan! Acho que meu comentário anterior ficou incompleto…eu estava falando no contexto desta nova trilogia que começou com “O Despertar da Força”. Meu “medo” de nesses novos filmes a Rey ser uma Skywalker foi principalmente com o título que “Os Últimos Jedi” recebeu. Seria na minha opinião reducionista colocar os últimos representantes vivos da Força na linhagem Skywalker (o Luke, o próprio Kylo e no caso a Rey). O fato de os pais dela não serem ninguém importante me causou conforto porque nesse universo em que a Força está enfraquecida, ela não foi reduzida à linhagem do Skywalker, e portanto a esperança de um futuro melhor não está somente nas mãos deles. =)

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  • 12 Janeiro, 2018 at 15:32
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    gostei da análise. A cultura pop prega idéias mastigadas e de fácil absorção, quando uma obra “POP” envereda por temas mais metafísicos, deixa de virar entreternimento e começa a invadir terrenos filosóficos, típicos de arte revolucionário. Claro que a Disney quer mesmo é uma alavanca para nmais mil filmes da saga, mas os sinais dos tempos estão chegando. O bem e o mal estão em tudo e em todos ao mesmo tempo, caba a consciência encontrar o caminho da iluminação, às vezes acontece com grande sofrimento, como vimos nas historias dos heróis e anti-herois do filme.

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    • 13 Janeiro, 2018 at 14:36
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      Sim! É legal porque como parte da indústria cinematográfica a Disney vai sempre querer vender mais filmes e visar o lucro, mas achei que ela fez escolhas corajosas para esse longa. Humanizou mais seus heróis, todos são passíveis de erros.

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